Sábado, 13 de Janeiro de 2007
Ainda a REVOLTA e não só...

Manuela Soares, na AMBIO, considerou muito justificado o meu "sentimento de revolta" pelo que se passa no litoral português. Aqui fica o seu depoimento, "in memoriam", que se agradece.

Manuel Antunes

 

"Fico sempre sem graça quando leio a desilusão nos textos dos outros.
Particularmente, até, porque compreendo o fundamento da mesma. Mais ainda, no
entanto, quando não vislumbro saída ou projecto de saída.
Eu sei que a história não se faz de maneira linear. Eventualmente haverá “males que
venham por bem” para o ambiente e para os seus defensores. Também pode
acontecer que “todos os caminhos venham a acabar em Roma” portanto Roma
chegará faça-se o que se fizer.
Chega sempre para todos também, um dia, o momento da lamúria. Expressar a dor
até alivia, evita consumir as entranhas e atrasa o desenvolvimento da úlcera.
Expressar a impotência pode ser só isso e ficar por aí. Mas pode ser mais do que isso,
ser apenas o início de um qualquer outro pensamento. Saber que estamos mal é
preciso para saber o que nos falta. Aqui já estamos a equacionar. Um dia destes, entre
as meias e as camisas, as crianças e os almoços, explodirá uma solução.
É preciso é ser positivo...
No outro dia, Manuel Antunes queixou-se das perplexidades que assolam o litoral.
Pareceu-me muito justificado o seu «sentimento de revolta». Fiquei a aguardar que
mais alguém se pronunciasse (ele, pelos vistos, também) e nada.
Desinteresse? Não
acredito. Impotência? Isso, sim. Há um qualquer sentimento de vazio, de actuação, de
esvaimento seja das ideias seja das oportunidades.
Não se poderia fazer umas manifestaçõezitas? (Hum...estou démodée, não é?) Uns
abaixos-assinados? Chatear um qualquer grupo político? Ou todos? Pressionar algum
jornalista mais resoluto? Falta cá outro Afonso Cautela? Hoje há textos e imagens em
excesso e nem os Cautelas seriam atendidos?
O que falta aos ambientalistas? Há ambientalistas ou ambientalismos? Quem é que
está no lugar errado?
Pensando positivo, as perguntas seriam: Quem é que tem obtido resultados? Quais
foram as acções que obtiveram mais dividendos? O que é que ainda não se fez?
Pela minha parte tenho a impressão que é preciso inventar outras palavras para os
temas do “ambiente”. Ambiente e ambientalismo já “foram”. Agora significam tudo. É
como “textura” e “energia”, há palavras que se esvaziaram da sua força, tal a
variabilidade de conceitos que veiculam.
São apenas palavras, dirão alguns. Eu digo que são as palavras que concretizam os
pensamentos. Para nós e para os outros. É com as palavras que se cozinham as
ideias.
Tanto as palavras como os argumentos já foram aprendidos e recauchutados para uso
dos desambientalistas. Estes têm uma estrutura forte, que mais não seja aquela forma
de pressão constante e coerente gerada pela motivação única: o dinheiro.
Tenho a intuição que é preciso saltar da mesa de jogo para fora e usar outras
palavras. As quais deveriam expressar novos pensamentos, novas maneiras de pôr as
coisas. Tal como reformular a noção de “lucro” de “economia” e de “desenvolvimento”.
“Sustentável” também podia desaparecer. Não há ninguém hoje, em Portugal, que não
concorde que sim, tudo tem que ser “sustentável”. Logo, não estamos dizendo nada.
Afinal em que é que discordamos? Procuremos a palavra Símbolo da nossa discórdia.
Para que se perceba claramente onde está a demarcação entre as diferentes
actuações. Sustentável também já “foi”.
É preciso reformular, inventar, dar de novo. E andar à frente em questões de
terminologia, modificar a cara atempadamente aos conceitos pois que eles têm
tendência a envelhecer. Até porque a «sociedade civil» tem pouco poder de destrinça,
confunde-se facilmente. 
Faltará ideologia? Eu é que não tenho preparação específica nestes temas portanto
não poderei adiantar muito mais. Mas cumpro ordens. Gosto, particularmente,
daquelas mensagens que me exortam a fazer coisas, a participar em coisas (obrigado
Pedro Jorge Pereira), alguma acção conveniente sempre me pareceu bem.
Gosto de identificar, nomear, explicitar. Saber em que posso ser útil.
Por exemplo, saber quem são os «eles» que «têm a consciência tranquila»
erradamente. O que posso eu fazer para os inquietar?
Quem são os ingénuos e os não-ingénuos que vivem «em paz com a sua santa
consciência» ou «sem estados de alma» quando deles se esperava outro
comportamento? Será de mim que estão a falar?
Sou eu que falto enlutar-me para que o «camartelo» deixe de funcionar? Engano: eu já
me sinto enlutada. O que falta, então, fazer?
Coisas concretas, por favor.
Saudações
Manuela Soares"


tags:

publicado por MA às 17:07
link do post | comentar | favorito

Terça-feira, 9 de Janeiro de 2007
Revolta (Cont.)

Da AMBIO:

"Penso ser importante cumprir a lei e passar multas às pessoas que
estacionam os carros nas falésias e usam as mesmas como aprendizagem de
escalada. É preciso uma campanha de informação repressiva dos infratores o
ano todo. Não sou a favor que se informe as pessoas sem multar, já que os
placares, neste sentido, existentes, desde sempre, de nada têm adiantado.

Estive lá [no Algarve] na passagem de ano, uma época bem calma, e mesmo assim vi
episódios como os descritos, que, no verão, devem ser vistos a toda a hora.
Eu, por acaso, não tive oportunidade de os denunciar na altura, o que foi
pena. Penso em fazer uma queixa neste sentido para a linha SOS ambiente (se
é que me vão atender um dia).

O problema da construção é mais grave e de difícil resolução no curto prazo,
dado os interesses envolvidos, mas precisamos também de chamar a atenção
para este assunto, a ver se as coisas melhoram.
Lúcia Fernandes"

***

Pensei que o meu "sentimento de revolta", expresso no "post" anterior e amplamente divulgado, ia criar um "tsunami" nacional para exigir responsabilidades, civis e criminais, aos governantes, autarcas, empreiteiros, privados, que andaram a destruir a costa algarvia, para benefício pessoal, e agora vêm, sem qualquer pudor nem decência, exigir os recursos financeiros de todo o Povo Português, para defender os seus interesses privados. Ingenuidade a minha, pois apenas obtive, até agora, o "feedback" da Lúcia Fernandes, cuja atenção se agradece. Afinal, o pessoal ainda consegue estar a mais milhas de distância dos "grandes desígnios nacionais" do que eu!

MA

 


tags:

publicado por MA às 19:15
link do post | comentar | favorito

Domingo, 7 de Janeiro de 2007
REVOLTA
O EXPRESSO acaba de publicar a notícia, abaixo reproduzida, do grande desígnio nacional: estabilizar as arribas da praia, na Costa Algarvia, em 2007. Depois dos Estádios do Euro, e não só, era esta que nos faltava: pagarmos a vida boa e à francesa (no Algarve, à inglesa) de uns tantos que andam a usufruir dos recursos de todos nós! Deixem que o mar faça a limpeza que tem a fazer, que, naturalmente, será bem feita...
Para quando um levantamento nacional a denunciar a situação, que responsabilize, civil e criminalmente, governantes, autarcas e privados, que todos os anos lançam o nosso dinheiro ao mar? Não haverá por aí alguém que queira encabeçar esse movimento? É que eu desde há muito que estou a léguas dos "grandes desígnios nacionais"!
MA
 
 Expresso, 06 de Janeiro de 2007
Zonas de  risco em 67% da costa algarvia
Estabilizar arribas de muitas praias é a tarefa mais urgente para 2007
 As praias e falésias de Lagos (praia D. Ana), Portimão (praia dos Três Castelos), Albufeira (Torre da Medronheira), Alje­zur (arribas de Odeceixe), La­goa (praia da Senhora da Ro­cha), Loulé (Vale do Lobo) e as ilhas-barreira em Faro e Olhão são os exemplos mais visíveis de problemas provocados pela ero­são e a subida do nível do mar. E, sabendo-o, o próprio Ministé­rio do Ambiente destaca, entre as suas prioridades para 2007, cerca de 30 intervenções em zo­nas de risco do litoral algarvio, dez das quais definidas como 'de grande prioridade'. Vão ser apli­cados este ano, através da CCDR/Algarve, cerca de € 1, 6 mi­lhões em defesa da costa e re­qualificação das praias.
Prioridades: praias do
Amado, D. Ana, Castelo,
Careanas e Três Castelos;
Vale de Lobo e ilhas de Faro, Culatra e Armona
 A associação ambientalista Quercus também reconhece que "o litoral algarvio está a desaparecer a um ritmo elevado". E salienta que, "em muitos lo­cais, a construção desenfreada e a acção do homem agravam ain­da mais o problema".
Vale do Lobo, Ria Formosa e ilha de Faro seriam destaques, pela negativa, nesta frente, em­bora os especialistas calculem que a percentagem de área de costa em risco já atinja os 67%. A Quercus até defende o eventual recurso às expropriações "nos casos mais críticos". De acordo com os ambientalistas, is­so "poderia significar a poupan­ça de muitos milhões no futu­ro", permitindo demolir infra-estruturas em risco e fazer a renaturalização costeira.
As intervenções no terreno fazem-se mediante Planos de Or­denamento da Orla Costeira (POOC), estando definidos os de Sines-Burgau, Burgau-Vilamoura e Vilamoura-Vila Real de San­to António, este recentemente. O problema é que a taxa de exe­cução é muito baixa, como acon­tece pelo país. Segundo uma fon­te da CCDR, a taxa de execução na sua área é de 33%.
No caso do POOC Burgau-Vilamoura, por exemplo, apenas fo­ram gastos 5.2 dos €17,8 mi­lhões previstos. E, quanto ao Vi­lamoura-Vila Real de Santo An­tónio, o último do país a ser aprovado, foram investidos só 1,1 dos €129,8 milhões previstos para todas as intervenções.
Entre as dificuldades de execu­ção dos POOC, o Ministério do Ambiente destaca "a escassez de recursos humanos, os cons­trangimentos financeiros, a in­definição das entidades respon­sáveis por algumas acções e ca­rências em vigilância, fiscaliza­ção e monitorização".
Mesmo assim, o Governo fri­sa algumas vantagens já visí­veis, nomeadamente "a conten­ção do crescimento urbano, em zonas sensíveis e de risco, e a requalificação das praias".
NUNO COUTO Jornal do Algarve
 

tags:

publicado por MA às 01:08
link do post | comentar | favorito

pesquisar
 
Agosto 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


posts recentes

Ainda a REVOLTA e não só....

Revolta (Cont.)

REVOLTA

arquivos

Agosto 2017

Julho 2014

Março 2014

Agosto 2013

Fevereiro 2013

Dezembro 2012

Agosto 2012

Maio 2012

Outubro 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Agosto 2009

Abril 2009

Fevereiro 2009

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Rio Homem - II

A Gente de VILARINHO DA F...

Centenário de Miguel Torg...

links
blogs SAPO
subscrever feeds